segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Os discos que não ouvi em 2015

0 comentários
Texto originalmente publicado em Catavento*

Esta não é uma lista de fim de ano, muito menos uma justificativa para a ausência de um ranking de melhores discos e filmes de 2015 no blog. Esta é, na verdade, uma postagem que exalta o penoso ofício de consumir arte em ritmo lento -- algo que descobri há alguns anos e tive de aperfeiçoar nos últimos 12 meses.

O Slow Movement é um movimento cultural iniciado nos anos 80 com o irônico slow food -- o nome deixa claro do que se trata -- e rapidamente aplicado a outras vertentes: slow money, slow fashion, slow cinema, etc. Em resumo, se trata de viver de forma mais lenta, desfrutando de forma aprofundada das relações humanas e freando o consumismo.

Em abril de 2015, me tornei pai de uma moreninha com olhos de jabuticaba e, naturalmente, dediquei a maior parte do meu tempo à ela desde então. Olhando a pasta de downloads e os discos no Spotify, não passei de 15 álbuns novos neste ano. Um recorde negativo (?) para quem está habituado a ouvir, analisar e escrever sobre os lançamentos recentes.

Neste contexto, o Slow Movement se tornou uma necessidade no meu dia a dia. Entre fraldas, banhos e engarrafamentos no trajeto casa-trabalho-casa, pouco acompanhei dos principais discos, tendências e filmes em cartaz. Como jornalista, me esforcei para manter o ritmo apenas na leitura de notícias de economia e política.

Passada a abstinência dos primeiros dias, me peguei pensando no que cantou Caetano no Festival de 67: “o sol nas bancas de revista / me enchem de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia?” Os versos permanecem atuais em tempos de redes sociais: quem curte tantas fotos? Quem vê tantos vídeos? Quem lê tantos tuítes? Quem conta tantos likes?

Com um pendrive lotado de músicas “velhas” no carro, tive a oportunidade de redescobrir nuances, melodias, resignificar frases e encontrar beleza em discos que ouvi na correria em 2014, 2013… Foi na impossibilidade de me atualizar no frenesi da vida moderna que aprendi a enxergar beleza no que estava em minhas mãos o tempo todo.

Até mesmo na Netflix, que lança séries em ritmo alucinado, optei por ver filmes há tempos na lista de pendências. Ironicamente, “O Feitiço do Tempo” (1993) foi uma destas obras que redescobri em 2015. A história do jornalista preso nos eventos de um mesmo dia foi um disparador de reflexões acerca dos valores que damos à vida e às pequenas coisas.

Enquanto minha filha crescia, pude perceber o quanto seu ritmo de aprendizado me ensinou. Examinando cada som, cada gesto e cada cor infinitas vezes, fui entendendo que é na repetição que eles moldam o mundo ao seu redor. Maria degustou cada nova fruta com atenção e curiosidade; cada colherada como se fosse a primeira. Por que não ser assim na vida?

As lições de 2015 deixaram marcas e moldaram o ser humano que pretendo ser em 2016. Que possamos investir mais tempo em fruição estética e menos em ritmo de consumo. Que as listas tirem do foco o que é necessariamente novo ou inovador e abram espaço para o que nos emociona, nos toca de forma sincera e nos muda para melhor.

Mais conteúdo. Menos ritmo.

Como Sufjan Stevens fez o maior disco de natal da história

0 comentários
Texto originalmente publicado no Catavento*

Megalomaníaco, excêntrico e audacioso não são adjetivos adequados à figura franzina, de voz maviosa e perfil reservado de Sufjan Stevens; à sua obra sim. Após dois discos pouco conhecidos, foi em “Sufjan Stevens Presents... Greetings from Michigan, the Great Lake State” (2003) e “Sufjan Stevens Invites You To: Come On Feel the Illinoise” (2005) -- sabiamente abreviados para “Michigan” e “Illinois” pelos fãs -- que o multi-instrumentista, compositor, produtor e cofundador do selo Asthmatic Kitty encantou público e crítica.

Com uma mistura de folk, orquestra, pop, indie, eletrônico, lo-fi e mais quantos gêneros você for capaz de identificar e descrever, Sufjan [lê-se “súfian”] prometia lançar um disco para cada um dos 50 Estados americanos. Cinquenta discos, você leu certo. A afirmação, naturalmente, não passava de jogada de marketing, mas ninguém ousava duvidar da extravagância do compositor que fazia títulos de canções “intuitáveis” (Aurélio, aí vou eu).

Nem o próprio autor deve ter decorado o título de “The Black Hawk War, or, How to Demolish an Entire Civilization and Still Feel Good About Yourself in the Morning, or, We Apologize for the Inconvenience but You're Going to Have to Leave Now, or, 'I Have Fought the Big Knives and Will Continue to Fight Them Until They Are Off Our Lands!”. Ouvindo a canção, é impraticável numerar os instrumentos presentes no arranjo de pouco mais de dois minutos.

Misturando referência bíblicas, confissões de fé, relatos banais do cotidiano e histórias melancólicas com a mesma destreza de um confeiteiro experiente, Sufjan ficou marcado na história da música contemporânea por suas texturas, nuances e ambiências, seus sabores e dissabores. É essencial compreender até o contexto familiar em que o artista foi criado para dimensionar a importância de alguns de seus trabalhos -- “Carrie & Lowell”, lançado neste ano, fala da esquizofrenia da mãe, que abandonou os filhos ainda pequenos.

Mas por que falar de Sufjan Stevens e sua obra às vésperas do Natal? Discos natalinos especiais são uma tradição no mercado fonográfico americano e, durante algum tempo, foram emulados no Brasil -- vide o sucesso estrondoso de “25 de Dezembro” (1995) de Simone, eternizado em nossas mentes graças à versão tupiniquim de “So this is Christmas”, do Lennon. Eu, particularmente, não gosto desta tradição americana. São discos pasteurizados, feitos para o mercado, cheios de versões sem graça para as mesmas canções de sempre.

Em Sufjan Stevens e sua megalomania, obviamente, encontramos uma exceção. Gravado entre 2001 e 2012, “Songs for Christmas” foi inicialmente distribuído para amigos, fãs e familiares do artista. Lançado oficialmente em coletâneas especiais em 2006 e 2012, o trabalho mistura repertório natalino e composições próprias, reunindo 284 minutos -- quase cinco horas de música. A variação de gêneros e estilos torna a experiência prazerosa e curiosa. Há espaço para psicodelia, deboche, exaltação cristã e canto infantil. E muito mais.

Estão lá as tradicionais “Holy, Holy, Holy”, “Amazing Grace”, “Jingle Bells”, mas também “Christmas Unicorn”, “Lumberjack Christmas” (feita em parceria com os guitarristas do The National) e “Christmas Woman”, que em nada lembram a temática espiritual e reflexiva que marca o Natal. O tom despretensioso do disco é seu ponto forte. Não há uma estética padrão e uma referência obrigatória à data -- embora boa parte das canções tenha elementos natalinos. Algumas das composições evocam o que há de melhor na obra do artista.

A desordem é proposital. Vivemos em um mundo cada vez mais corrido, confuso e desnorteado. Muitos anseiam o Natal ao mesmo tempo em que refutam a ideia de reencontrar familiares e aturar pela milésima vez as piadas do “tio do pavê”. A obra caórdica de Sufjan talvez seja o retrato mais verossímil do Natal como conhecemos hoje. Tensão e paz lado a lado, alegria e melancolia, entre tantas outras dicotomias possíveis. “Por que a música de Natal continua agitando nossos corações envelhecidos?”, questiona o artista em sua página oficial.

“O Natal é chato [...] Esta é a verdadeira catarse do show de horrores do Natal: o vazio existencial que persevera no coração do homem moderno enquanto ele imprudentemente busca a felicidade e volta de mãos vazias. E, no entanto, contra todas as probabilidades, continuamos a cantar nossas músicas de Natal”, enfatiza. “Será o firme fundamento das coisas que se esperam ou a prova das coisas que se não veem? Ou será a energia sem limites deste feriado bastardo, tão irregularmente explorada e adaptada indecentemente? Talvez seja isto: a música do Natal faz justiça a um mundo de crimes, casando sagrado e profano, gritando profecias do Messias na mesma respiração tempestuosa com que entoa jingles de TV”.

Neste Natal, deixe-se guiar pela voz doce de Sufjan, mas acredite: as verdades que ele canta merecem reflexões mais duradouras que a ceia natalina.

Songs for Christmas: Vol I-V



Songs for Christmas: Vol VI-X

Conheça o rap (e a faca amolada) de kivitz

0 comentários
Texto publicado originalmente no Catavento*

A igreja brasileira vive uma de suas mais longas e lastimáveis trincheiras. A pluralidade de tolices que ecoa dos incontáveis templos torna-se cada vez mais excêntrica, amplificada pelo espaço conquistado nas TVs, nas grandes gravadoras e na Política nacional. A bancada da insensatez segue sua marcha, cada vez mais distante da mensagem original do Evangelho. O cenário apocalíptico corrompe líderes e seduz pastores, mas não intimida a faca amolada travestida em verso & beat de Vitor Kivitz.

Disparando contra o modelo de vida propagado em rede nacional, kivitz -- alcunha artística do rapper paulista de 26 anos -- é profeta de uma nova geração de cristãos, moldada por blogs, podcasts e debates no universo virtual. “Os profetas que têm espaço na TV são falsos, fazem um desserviço ao Evangelho. Todos que já assisti pregaram um Evangelho que não é o mesmo que eu creio”, pontua, ao mesmo tempo em que rechaça o papel de porta-voz.

minha profissão profeta faz minha meta ser
calar tua voz e de todos que parecem com você
fazer meu povo desligar a TV
por isso pára, malafeia, mala cheia
toma vergonha na cara
- trecho de “Crente Block”

“Por muito tempo eu fui [sedento por alguém que me representasse], mas não sei se isso é saudável”, analisa. “É algo que penso bastante. Eu acho que a identificação é natural; a empatia. Se fosse outra pessoa, não gostaria que eu a representasse. Isso é mais um retrato do Brasil e dos EUA -- cultura que atualmente mais bebemos. São culturas sem líderes, políticos omissos, distantes… e os jovens acham seus líderes na arte”, exemplifica.

Com mais de três mil curtidas no Facebook e 100 mil execuções no Soundcloud, kivitz se surpreende com o alcance de suas rimas -- “esperava umas 20 mensagens”, fala sobre o dia em que gastou horas enviando faixas que prometeu no Facebook -- e vibra com o público que aglutinou, bem mais complexo que a caricatura cristã impregnada no imaginário popular. “As pessoas que admiram meu trabalho são maduras, trocam ideia e seguem a vida delas”.

Fazendo rap desde os 13 anos, kivitz tem pai pastor e mãe assistente social. Aprendeu violão ainda criança, quando tocava Djavan -- “sempre gostei de música, mas sempre preferi as letras”. Classe média, sonha cursar Filosofia, mas tem os dois pés cravados nos duros exemplos que acompanhou desde sempre. “A igreja é uma salada de realidades e a comunidade cristã em que eu cresci sempre teve como prioridade a parte social”, relata.

Influenciado pela mãe, frequentou por dez anos a Fundação Casa, em especial a de Franco da Rocha, localizada na região metropolitana de São Paulo. Nas visitas semanais, moldou um senso crítico resultante da “bíblia e da cultura judaico cristã, somadas ao rap nacional”. Jesus, Sabotage, Kamau, Rappin Hood e o pai -- o conhecido pastor Ed René Kivitz -- são referências cruzadas, explícitas ou não em sua obra.

Kivitz não lembra como o rap entrou em sua vida, mas desde que o conheceu, não hesitou em cumprir seu papel. “O rap é compromisso, ensinou Sabotage”, relembra. “Ninguém cobra de um cantor de sertanejo que ele viva o que canta, do MC sim. É a cultura. O [Mano] Brown gravou uma música com o Naldo e ouviu uma pá. A rapaziada inclusive força a barra, se mete demais (risos). Mas é o preço de ser uma cultura construída em comunidade, as pessoas se sentem parte. Acho isso lindo”, ressalta.

“Mano que sabe rimar e tem uma voz marcante virando líder de uma juventude. Graças a Deus estamos vivendo um bom momento, com artistas que assumiram essa responsabilidade. Acho que dos estilos [musicais o rap] é o que mais mantém essa característica. [É mais] maduro em relação à idolatria, babação de ovo. O rap e o Evagelho trazem essa mensagem: todos são iguais. Então fica até incoerente [ter fãs deslumbrados]”, explica.

sem a fantasia do Jesus bonzinho
sigo o nazareno loko da revolução
não o santo, barba feita, cabelo lisinho
curto aquele acusado como beberrão
que sem drink lá na festa fez da água, vinho
sou mais esse que jantou na casa do ladrão
- trecho de “O último cristão”

Igrejas engajadas

O alinhamento entre Cristianismo, Humanismo, Evangelho e rap reverbera na realidade que tem encontrado pelo Brasil. A aproximação entre a instituição igreja e a comunidade vem sendo liderada por jovens, garante kivitz. “Tenho rodado algumas comunidades completamente engajadas nas questões sociais. Já fui a eventos em igrejas em que o tema era racismo, orfandade, outro foi para discutir essa distância entre igreja e sociedade”.

“O que é bonito que eu tenho visto são jovens que tem puxado os ministérios nas igrejas. São jovens universitários, engajados em movimentos sociais, que não ouvem música gospel. Esses jovens têm assumido papel de liderança nas comunidades. Muitos compram brigas, mas é isso mesmo. Jovem tem que comprar briga, senão não muda”, relata, empolgado com a mudança em curso na comunidade cristã brasileira.

Questionado sobre a utopia da igreja ideal, kivitz joga luz sobre o papel de cada membro, desconstruindo a visão institucionalizada do Cristianismo. “A igreja é ideal [grifo da reportagem]. Ela não é perfeita, porque a igreja são pessoas. A igreja-pessoas trouxe o Evangelho vivo até hoje, mais de 2000 anos. Depois do ministério de Jesus, a igreja é o movimento popular mais duradouro e impactante da história”, enfatiza.

Dentro ou fora da igreja, as letras ácidas e impactantes rendem “inúmeros retornos, diversos testemunhos”. “Eu vejo as pessoas torcendo o nariz mais pela mensagem. O evangelho, o rap, eles incomodam. Acho que o mais gratificante pro MC é ouvir de alguém: ‘você cantou o que eu queria ter cantado, você disse o que eu queria ter dito!’ ou ‘parece que fui eu que escrevi essa musica’. Pô, eu chapo ouvindo isso”.

minha missão em cada faixa que se prensa /
é a desconstrução do que cê acha que cê pensa /
uma expansão que não se encaixa em toda crença /
[...]
imagina se tivesse um nome que surgisse /
e ouvisse nossas preces /
e cês ainda acredita no amor como saída /
ou é vaidade? tudo é vaidade
- trecho de "Vaidade"

O peso que kivitz joga sobre os ombros dos rappers contrasta com a despretensão com que analisa a cena da música cristã contemporânea. “Quem sou pra esperar algo mais. [Tô] lutando pra fazer minha parte. Cada artista tem sua ideologia, seus objetivos”. Sobre a própria obra, o paulista resume. “Artista não faz nada voltado para lugar nenhum, artista põe sua alma naquilo que faz. No meu caso é a música. Eu sou cristão, discípulo de Cristo, da linhagem ‘só por hoje’, então minhas poesias apontaram pra isso de alguma maneira. Agora, em que prateleira vão colocar minha música não é mais problema meu”, sentencia.



Primeiro EP

Produzido “a 12 mãos”, o EP “casa ≠ lar” (2015) foi lançado em dezembro e abre a discografia oficial do artista -- antes espalhada em diversas tracks disponibilizadas em serviços de streaming. O rap de kivitz também teve voz na canção "Nação da Cruz" de Daniela Araújo.

Com cinco faixas, casa ≠ lar se destaca pela excelência na produção dos beats, “orgânicos” e gravados com a participação de músicos de alto nível. O baixista que conduz o groove de “Profetas”, por exemplo, é Robinho Tavares, figura frequente nas bandas de Ed Motta, Max de Castro, Simoninha e outros grandes da música negra nacional.

Os pianos elétricos, sintetizadores e guitarras dão o tom nos melhores arranjos do disco, fugindo dos loops “engraçadinhos” ou das batidas eletrônicas retas. Desambicioso, o curto EP se encerra com kivitz esclarecendo que “se o resultado disso aqui for o sucesso, alguma coisa tá errada”. E é graças a esse descompromisso comercial que o rapper consegue encaixar “puta que lavou os pés de Cristo” e “Jesus papai noel já deu no saco” na mesma faixa (“O Último Cristão”).

Sobre o possível sucesso, kivitz é direto. “De que sucesso estamos falando, né? Uma música e uma fé que propõem o embate contra a ‘Babilônia’ não pode ser abraçada por ela. Se você for ver, o de Jesus fez sucesso: é o livro mais vendido, o nome mais falado, mas [ele] morreu aos 33 crucificado e mal falado. Abrangência é diferente de sucesso”, conclui. Complementando com trecho de “Profetas”, a análise faz sentido: “profetas sempre foram mal vistos, mal quistos [...] o dia em que o rap virar moda ele morreu”, entoa em “Profetas”.

Precisamos conversar sobre Matthew Perryman Jones

0 comentários


Texto originalmente publicado no Catavento*

Três artistas americanos habitam o consenso imaginário da música cristã contemporânea: Michael Gungor, Jon Foreman e John Mark McMillan. O primeiro, apesar dos discos em carreira solo e da habilidade com as guitarras, ganhou notoriedade graças ao coletivo formado com a esposa – que agregou também o exímio pianista John Arndt e o multi-instrumentista David Gungor, líderes do The Brilliance.

McMillan foi catapultado ao estrelato com “How He Loves” e vagarosamente mostrou solidez no repertório. Por fim, temos Jon Foreman, de longe o mais conhecido e aclamado do trio. Frontman do Switchfoot, soube usar da simplicidade em suas incursões pelo folk e, atualmente, tem na fase singer-songwriter (ou cantautor, como grifam os lusitanos) um trabalho mais interessante que o rock de arena californiano.

Matthew Perryman Jones não tem distribuição oficial de seus discos no Brasil, não costuma aparecer em listas de “melhores artistas cristãos” (problema resolvido!) e não integra uma grande gravadora americana – apesar de figurar ao lado de Leigh Nash, Andrew Belle e Katie Herzig no Ten Out of Tenn. Ainda assim, o prognata cantautor radicado em Nashville – terra que revelou gente como Johnny Cash e Willie Nelson – cria ambiências propícias à reflexão dignas de grandes nomes da música.

Com uma discografia extensa, iniciada nos idos de 2000, MPJ se equilibra na divisa do folk com o rock alternativo, trazendo à tona nuances do indie, com reverberações, timbres vintage e melodias tocantes. Lembra Ryan Adams em alguns momentos, com um acréscimo de pesar e melancolia na voz, dando tom lúgubre até mesmo às canções supostamente ensolaradas. Depressivo e reflexivo na medida certa.

Em “Echoes of Eden”, do bem produzido “Throwing Punches in the Dark” (2006), Jones entoa: “ecos do Éden / nossos gritos de liberdade / nos levarão àquela Cidade glorificada”. “Save You”, outro hit, traz conflitos à tona: “quero voar para longe / mas estou presa ao chão / me ajude a decidir / me ajude a me maquiar / me ajude a fazer minha cabeça / aquilo não te salvaria?”.



O talento para a construção de estribilhos grudentos rendeu ao compositor dezenas (!) de inserções em um dos terrenos mais férteis do mercado musical americano: as séries de TV. De “Grey’s Anatomy” a “Vampire Diaries”, passando pelo filme “O Que Esperar Quando Está Esperando” (que eu, pai há poucos meses, achei bem engraçado), em tudo há uma pontinha de refrão ou um arranjo que cativa o ouvinte desapercebido.

O próprio Gungor se rendeu à habilidade de MPJ, regravando em “One Wild Life: Soul” (2015) uma versão de “Land of the Living”, faixa-título do álbum lançado em 2012 via financiamento coletivo. Lisa Gungor compartilhou a emoção no twitter da banda: “Michael e eu estamos gravando as primeiras vozes de um cover de MPJ. Estou em lágrimas! ESSA LETRA”, descreveu.


Inúmeras canções merecem destaque ao longo da discografia de Matthew Perryman Jones: “Canción de La Noche”, “O Theo”, “Stones From The Riverbed”, “Capsized”, “Cold Answer”, “Untill The Last Falling Star”, entre tantas outras que nos comovem pelas letras, harmonias e melodias cuidadosamente construídas. E agora que já conversamos sobre, que tal ouvir um pouco de Matthew Perryman Jones?

Em Xeque: pra onde vais, Silva?

0 comentários
Texto originalmente publicado no Catavento*

“12 de Maio” deixou de ser uma data comum em 2011, quando o capixaba Lúcio Souza – conhecido até então como tecladista e produtor dos discos “Cidade do Amor”, o melhor da carreira de seu irmão Lucas Souza, e “Esperar é Caminhar”, do Palavrantiga – presenteou o indie pop brasileiro com “SILVA” (2011), EP homônimo que abria seus trabalhos como cantor e revelava o sobrenome menos conhecido da família.

A mistura de dream pop e chillwave criava uma atmosfera nova no cenário nacional, atraindo a atenção das principais revistas especializadas e do selo Slap, da toda-poderosa Som Livre. A diversidade de comparações provava o ineditismo do som do capixaba, apontando de Guilherme Arantes (com toque menos “mão-de-pedreiro”) ao britânico James Blake (em versão medicada com antidepressivos).

“Claridão” (2012, Slap), disco muito aguardado pela imprensa e pela legião de fãs que se formou rapidamente, veio embebido em reflexões e novas texturas eletrônicas. “Paraíso / ninguém vai tirar nossa condição / Deus é riso / e hoje tem luar, tem claridão”, entoava SILVA no refrão da faixa-título, que abusa de loops, sintetizadores e conta até com trechos de canto lírico na salada de experimentos.

O álbum seguinte, “Vista pro Mar” (2014, Slap), produzido na ponte aérea Brasil-Portugal, simplifica as nuances já apresentadas, dando lugar a trompetes, saxofones e outros elementos orgânicos até então incomuns na discografia. Mais um ano se passa e cá estamos nós diante de “Júpiter” (2015, Slap), anunciado pelo próprio SILVA como “o mais minimalista possível”. A contextualização histórica é essencial para a análise.

Em primeiro lugar, é preciso diferenciar minimalismo de simplismo. Construir composições inteiras em torno de um loop, um arranjo ou um conceito não são tarefas fáceis. Em “Eu Sempre Quis”, a estratégia dá certo – principalmente por abrir espaço para as guitarras de Rodolfo Simor, do Solana. Já a batida pobre de “Nas Horas” remete a um R&B preguiçoso. Um Seu Jorge sem gingado.

O tom “sexy” do álbum surpreende. Algumas canções parecem visar à pista de dança – não à toa, o novo cliperevela um Lúcio mais solto, arriscando passos em frente à câmera. O caminho havia sido indicado pelo single “Noite”, lançado também neste ano em parceria com Lulu Santos, especialista no assunto. A fórmula funciona em “Sou Desse Jeito”, mas cansa pela repetição. Falta dinâmica ao disco.

Um dos pontos altos é “Feliz e Ponto”, exatamente pela quebra de ritmo e pela letra sem melodramas. No geral, SILVA parece se aproximar cada vez mais do fofo-pop de Clarice Falcão e Tiago Iorc. Mira no universo das trilhas de novela em “Se Ela Voltar” e “Sufoco”, com rimas de amor adolescente – ambas em parceria com Lucas Souza. Desaparece o tom que marcou “Imergir”, “Cansei” e “Vista Pro Mar”.

“Júpiter pode ser começar de novo”, afirma o compositor em “Júpiter”. A órbita de recomeço que escolheu, porém, parece confusa e sem direção definida. Segue rumo às estrelas globais enquanto se afasta do Sol? O compositor capixaba está longe das marcas autorais que construiu até aqui, sob o risco de transformar-se em “só mais um SILVA” no panteão de nomes da nova MPB.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Leia também no Catavento*

0 comentários
Esqueci de avisar a vocês que comecei uma coluna no catavento* desde o fim de 2015. Por esta razão, como devem ter notado, parei de atualizar o feed deste blog.

Talvez eu faça um backup dos textos aqui, mas, ao menos por enquanto, a melhor maneira de acompanhar as análises de discos e dicas musicais que tenho feito é no meu blog no catavento*.

catavento.me/rafaelporto



sexta-feira, 22 de março de 2013

Timberlake, por que não?

0 comentários
Justin Timberlake caminha a passos largos para assumir o posto de rei do pop. Quem acompanha este blog há algum tempo sabe que eu gosto bastante de Michael Jackson e eu não tenho vergonha de gostar do que é pop -- só tenho vergonha de tudo que é mal feito.

Quem nos dera todo o pop radiofônico tivesse a qualidade dos arranjos, da performance vocal (sem autotune!) e artística destes vídeos do Timberlake. A banda executando tudo ao vivo, com uma pegada digna dos melhores grooves dos anos 70, é uma raridade em um universo tão eletrônico:

Suite & Tie, ao vivo no SNL, no melhor estilo Michael Jackson:


Pusher Love Girl, no programa da Ellen:



Sexy Back em uma versão ragtime, brincadeira vocal que só mostra a qualidade técnica do cara: