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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A importância da análise crítica, segundo George Orwell

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Terminei de ler - tardiamente, confesso - uma das obras mais relevantes da história: A Revolução dos Bichos, de George Orwell. O livro, crítica assumida ao modelo ditatorial adotado na Rússia Soviética, traduz em uma fábula a morte de Lênin, a briga interna entre Stálin e Trótski, e o posterior Stalinismo - que se revelou um regime tão violento e agressivo como os outros.

O que mais me chamou a atenção - e motivou este texto - não foi a obra, em si, mas o prefácio de Orwell para a primeira edição do livro, em 1945. Intitulado "A liberdade de Imprensa", o texto ataca o que o autor classificou como "covardia intelectual", problema semelhante ao que enfrentamos no mercado cristão - aqui chegamos ao ponto central desta postagem.

A arte cristã vem sendo comercializada como qualquer outra. Temos grandes gravadoras, grandes editoras, empresários, escritores e cantores de sucesso. Onde está o problema? A organização é benéfica e necessária para a sobrevivência em um universo tão competitivo. O grande vilão é o modelo raso no qual todas as obras se baseiam.

Livros de auto-ajuda sem profundidade bíblica, canções que versam sobre a "ressureição de sonhos" ou o "cumprimento da promessa"; moldes de sucesso garantido que nunca são atacados e questionados. E onde estão os jornalistas, os artistas independentes e os pastores famosos para criticá-lo? O interesse em ser parte da indústria é maior que a insatisfação com a prática estabelecida?

Orwell arriscou escrever contra a União Soviética (URSS) quando os elogios ao regime stalinista eram proferidos em uníssono na Inglaterra - tal qual as palmas para os prêmios Grammy vencidos por Aline Barros e os recordes de venda da filosofia rasa de Joyce Meyer. A isto, o autor chamou Ortodoxia.
Em qualquer momento dado, existe uma ortodoxia, um corpo de ideias que, supostamente, todas as pessoas bem-pensantes aceitarão sem questionar. Não é exatamente proibido dizer isso ou aquilo, mas dizê-lo é uma coisa que ‘não se faz’ [...] Uma opinião genuinamente destoante quase nunca recebe a atenção devida, nem na imprensa popular nem nos periódicos mais intelectualizados.
A análise crítica do conteúdo produzido soa como uma ofensa. Todo trabalho cristão é "uma bênção", mesmo que repita um modelo comercial pré-estabelecido para dar dinheiro às gravadoras/editoras e fama aos intérpretes/autores. Basta uma análise rápida para notar semelhanças gritantes de letra e estilo nos álbuns e de discurso nos livros.


E a juventude pensante, onde está? E o tom das preleções pastorais, quando se tornará mais ácido? Quem vai fazer o que "não se faz"? Quem vai repetir a ousadia de Lutero, da Rua Azusa e do Vencedores Por Cristo? Será que, se publicados hoje, nenhum desses mereceria espaço no mercado? Orwell responde.
A questão em jogo aqui é muito simples: será que qualquer opinião, por mais impopular – por mais estúpida, até – que seja, tem o direito de ser difundida? Formule-se a questão dessa maneira, e qualquer intelectual inglês se sentirá obrigado a responder que sim. Mas quando ela se reveste de uma forma concreta, e alguém pergunta: "E que tal, por exemplo, um ataque a Stálin? Tem direito de ser difundido?", a resposta quase sempre será não.
A renovação constante do modelo de propagação do Cristianismo é essencial para a sobrevivência da mensagem. Ou acreditam que Jesus, caso viesse à Terra nos anos 2000, utilizaria apenas barcos para espalhar sua mensagem? A Internet é ferramenta essencial nesse processo por oferecer autonomia ao ouvinte, torná-lo também um curador de conteúdo.

Entretanto, sem informação e reflexão, continuaremos a reproduzir no Youtube os hits radiofônicos. Mudar-se-á o modelo, sem acrescentar um traço de autenticidade e inteligência ao que é produzido.
[...] pode ser que, no momento em que este livro finalmente chegar ao público, minha visão do regime soviético tenha se generalizado. Mas de que isso, por si só, vai adiantar? A troca de uma ortodoxia por outra não representa necessariamente um avanço.
Se faz necessário sempre analisar criticamente o que nos é oferecido, evitando a reprodução em massa de conceitos rasos de Cristianismo. Só a análise minuciosa da Bíblia e do exemplo deixado por Cristo nos permitirá exigir dos autores estudos mais complexos da Vida. E assim, quem sabe um dia, teremos uma geração de questionadores, capazes de criticarem a si mesmos e tornarem-se melhores do que somos hoje.
O inimigo é a mentalidade de gramofone, concordemos ou não com o disco que está tocando agora.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Michael W. Smith: muito além dos clichês

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"Me dá um pão, moça..."

Michael W. Smith é um desses cantores capazes de se reinventar com o passar do tempo, amadurecer musicalmente e nos surpreender depois de 20 anos de carreira. Para uns, ele é apenas o dono de metade das canções que as igrejas cantam em uníssono - Let It Rain, Open The Eyes Of My Heart, You Are Holy e Above All são exemplo disso. Para mim, é um ícone pop que soube sobreviver ao fim dos anos 80.

Inicialmente dono de um mullet proeminente, Michael W. Smith investiu pesado em canções alegres, repletas de sintetizadores e com bases dançantes - semelhantes às que faziam A-HA, Depeche Mode e outros grupos oitentistas do gênero. No entanto, mesmo em meio a tantos ruídos digitais, o lado pianista sempre esteve presente em seus álbuns.

Canções como Friends e Place In This World acabaram por se tornar hinos de uma geração de jovens que envelheceu e se manteve fiel ao artista. Não é preciso assistir muitos vídeos no Youtube para notar que as primeiras filas possuem, majoritariamente, senhorinhas de 40 e 50 anos que, provavelmente, eram adolescentes quando o moço de olhos azuis surgiu na TV pela primeira vez.

Admirado por um grande grupo de pessoas, Michael não se conformou em viver dos hits do passado e começou seu processo de reinvenção musical. Flertando cada vez mais com o rock, apostou em pianos crus e guitarras distorcidas, conquistando espaço no mercado e a simpatia de novos ouvintes. Missing Person e Signs apresentam um quarentão jovial, atento às mudanças da música nos anos 90.

Tentando se firmar como compositor e músico de qualidade, lançou até mesmo um disco instrumental, intitulado Freedom - como sabe-se, "liberdade". Carol Ann e A Beautiful Mind comprovam o grau de domínio do instrumento - algo no nível de Jean-Yves Thibaudet. Hibernia e Freedom Battle mostram que Michael W. Smith também é capaz de escrever bem uma peça completa, com corda, sopro e tímpanos.

Rótulo Brasileiro

A imagem que cultiva no Brasil, porém, difere muito do real Michael W. Smith. Após lançar dois discos de adoração nos anos 2000, suas canções se tornaram símbolo dos movimentos emergentes encabeçados por David Quinlan e derivados. O cantor americano passou a ser venerado como o "pai da música de adoração" e seus DVDs rodaram até nas igrejas mais tradicionais.

Neste sábado (jan 14, 2012), verei a apresentação do cantor pela primeira vez durante o Jesus Vida Verão. Sei que boa parte do público deseja ver um culto ao ar livre, musicado pelas versões originais das canções que ouvem na igreja. Espero que, em respeito aos que o acompanham desde os primeiros discos, Michael W. Smith vá além dos clichês em que o prenderam e novamente nos surpreenda com clássicos antigos.

A playlist que gostaria de ouvir no sábado Desejo parcialmente realizado: o Michael W. Smith cantou quatro das doze músicas que eu havia listado:


- Go West Young Man



- Secret Ambition



- Rocketown



- I Will Be Here For You



- Friends



- Missing Person



- Signs



- Cry For Love


- Here I Am


- I'll Lead You Home



- Place In This World



- Healing Rain

terça-feira, 11 de outubro de 2011

erguendo-se da cova e da cama.

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Recentemente, escrevi sobre a apatia dos compositores cristãos. Distantes da realidade, os autores se preocupam em vender músicas que falam de um evangelho de promessas e riquezas, ignorando problemas sociais e a proliferação de falsos profetas na televisão. O discurso triunfalista, isolado da realidade, gera uma legião de ouvintes alienados.

Focados no próprio sucesso, tornam-se exclusivistas, a ponto de esquecerem de conceitos básicos, como o amor ao próximo, o desapego às riquezas e, principalmente, o prazer em servir a Deus. Parte desse erro é resultado do pouco conhecimento que os cristãos possuem de sua própria história. Discutimos hoje por bandeiras que já foram acenadas no passado.

Prova disso é "Asleep In The Light", algo como "Dormindo na Luz", composta por Keith Green - de quem também falei por aqui. A canção, composta ao final dos anos 70, mostra um cantor ácido, quase rancoroso, disparando contra toda uma geração que aceita a Cristo, mas não é capaz de "se erguer da cama".

A mensagem ainda ecoa.



Asleep In The Light

Dormindo na Luz (Tradução)


Do you see, do you see
All the people sinking down
Don't you care, don't you care
Are you gonna let them drown

How can you be so numb
Not to care if they come
You close your eyes
And pretend the job's done

"Oh bless me Lord, bless me Lord
You know it's all I ever hear
No one aches, no one hurts
No one even sheds one tear

But He cries, He weeps, He bleeds
And He cares for your needs
And you just lay back
And keep soaking it in,
Oh, can't you see it's such a sin?

Cause He brings people to you door,
And you turn them away
As you smile and say,
"God bless you, be at peace"
And all heaven just weeps
Cause Jesus came to you door
You've left him out on the streets

Open up open up
And give yourself away
You see the need, you hear the cries
So how can you delay

God's calling and you're the one
But like Jonah you run
He's told you to speak
But you keep holding it in,
Oh can't you see it's such a sin?

The world is sleeping in the dark
That the church just can't fight
Cause it's asleep in the light
How can you be so dead
When you've been so well fed
Jesus rose from the grave
And you, you can't even get out of bed

Oh, Jesus rose from the dead
Come on, get out of your bed

How can you be so numb
Not to care if they come
You close your eyes
And pretend the job's done

You close your eyes
And pretend the job's done
Don't close your eyes
Don't pretend the jobs done

Come away, come away,
come away with Me my love,
Come away, from this mess,
come away with Me, my love.

Está vendo, está vendo
Toda essa gente afundando?
Não se importa, não se importa?
Vai deixar que elas se afoguem?

Como pode ser tão insensível
Não ligar quando eles vêm a você?
Você fecha os olhos
E finge que o trabalho está feito

"Senhor me abençoe, me abençoe"
É tudo que eu escuto
Ninguém sente a dor,
ninguém se incomoda
Ninguém nem ao menos derrama uma lágrima

Mas Ele chora, Ele sofre, Ele sangra
E se importa com seus problemas
E você simplesmente se acomoda
E continua chovendo no molhado
Não vê o tamanho deste pecado?

Pois Ele leva gente à sua porta
E você as manda embora
Sorrindo e dizendo
"Deus abençoe, fique em paz"
E o céu inteiro chora
Porque Jesus veio à sua porta
E você o largou na rua

Se abra, se abra
Dê mais de si mesmo
Você vê que há necessidade,
você ouve os chamados
Então como deixar pra depois?

Deus está chamando, e você é escolhido
Mas como Jonas, você foge
Ele te disse pra falar
Mas você está guardando pra si
Não vê o tamanho deste pecado?

O mundo dorme nas trevas
Porque a igreja não luta
Porque está adormecida na luz
Como pode estar tão morto
Sendo tão bem alimentado?
Jesus se ergueu do túmulo
E você, nem consegue levantar da cama

Jesus levantou do túmulo
Vamos, levante da cama

Como pode ser tão frio
Não ligar quando eles vêm a você?
Você fecha os olhos
E finge que o trabalho está feito

Você fecha os olhos
E finge que o trabalho está feito
Não feche os olhos
Não finja que o trabalho está feito

Saia, saia, e venha comigo, querido
Saia desta bagunça,
venha comigo meu querido

Tradução retirada com adaptações do Letras.mus.br

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

a fé que move eleitores

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A revista Época discutiu o tema nas últimas eleições

As eleições municipais trazem à tona um velho ingrediente para a discussão política no Espírito Santo: a religião. O número de evangélicos na Grande Vitória, segundo levantamento do Instituto Futura realizado no mês de março, atingiu 35,7% da população. As recentes polêmicas acerca da união homoafetiva e do aborto, que acaloraram o debate na eleição presidencial, dão o tom do que será discutido no pleito de 2012.

A influência das lideranças religiosas sobre o eleitorado cristão alcançou níveis alarmantes. O PLC 122, alvo de críticas e protestos, é exemplo do furor que inflama o movimento protestante brasileiro. Recentemente, até mesmo a presidente Dilma abdicou da distribuição do kit anti-homofobia, frente às ameaças de convocação feitas pela bancada evangélica ao então ministro Antônio Palocci. Apesar do viés político da decisão, a petista sabia o tamanho do confronto que evitava: em meio à guerra de boatos da última campanha, atribuíram à Dilma a autoria da frase “nem mesmo Cristo me tira essa vitória”.

As urnas comprovaram o efeito dos e-mails caluniosos: Marina Silva, membro da Assembleia de Deus – igreja protestante líder na Grande Vitória, segundo o Futura –, arrancou na reta final rumo aos 20 milhões de votos. O tucano José Serra, também atento à movimentação religiosa, se aproximou de lideranças evangélicas e garantiu o apoio público de Silas Malafaia – um dos pastores mais influentes do Brasil e opositor confesso do PLC 122.


Em Vila Velha e Vitória, Marina saiu vitoriosa. Obviamente, não se deve reduzir a candidata à questão religiosa, afinal, seu discurso sobre a preservação ambiental e o crescimento sustentável conquistou adeptos de todos os credos. É fato incontestável, porém, que a política chegou aos púlpitos como “nunca antes na história deste país”. A massa eleitoral das igrejas, sem os calos adquiridos por quem acompanha o tema há tempos, foi facilmente manobrada ao longo das eleições.

Atentos ao panorama político-religioso construído no Estado, os candidatos logo iniciarão a temporada de visitação às igrejas – que neste período se transformam em verdadeiros feudos. Mas nem tudo pode ser tão fácil quanto parece. Amadurecido pela disputa presidencial, o eleitorado cristão pode começar a se organizar de forma inteligente. Espera-se, ao menos, que a discussão não fique polarizada, mais uma vez, entre o profano e o sagrado. Independentemente da fé professada por cada eleitor, pender para a guerra religiosa novamente prejudicará a todos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"a dor é pré-requisito para o crescimento"

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"Eu sou a lenda! Ouviu, Will Smith?"

A frase que intitula a postagem não é minha, mas de Mel Gibson. Citada durante sua 19ª entrevista para Ana Maria Bahiana -- uma das melhores especialistas em cinema, na opinião deste que vos escreve --, a sentença foi utilizada para justificar a presença constante de personagens sofredores nos filmes em que Gibson tem dirigido ou atuado.


Antes do texto, permitam-me um comentário:

Sou um cristão bastante crítico quando o assunto é a "ótica cristã" praticada sobre a produção cultural. "O Leão de Nárnia é Jesus!" e "Este Harry Potter é filme do diabo!", entre outras frases comuns, me causam risos pelo excesso de espiritualização dos espectadores. Hoje, porém, pago a língua e relacionarei alhos com bugalhos.


O polêmico ator e diretor, envolvido recentemente em denúncias de racismo e agressão, resumiu em uma só frase a essência do capítulo 10 do Evangelho de Mateus -- não intencionalmente, mas sob minha "ótica cristã". Explico melhor:

O texto de Mateus nos apresenta, basicamente, um Cristo rígido, ciente dos tempos difíceis que alcançariam os que optassem por segui-lo. Em meio às instruções dadas aos discípulos, Jesus mostra uma face pouco conhecida dos adeptos da Teologia da Prosperidade:
Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada; Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão os seus familiares. (versículos 34 - 36)
Este capítulo, aos poucos, vai se tornando um dos meus favoritos na Bíblia. A proximidade do sofrimento profetizado por Cristo -- bem diferente das guerras, doenças e terremotos relacionados aos fins dos tempos -- dão ao texto um tom contemporâneo que pode muito bem (que ironia!) ser aplicado à vida de um cara comum como Mel Gibson.

Em seu discurso, o Deus-Filho mostra que a dor seria compensada por algo maior e melhor que a alegria desta Terra: a vida eterna. A salvação é relacionada ao sofrimento, não de forma condicional, mas como consequência da vida em conformidade com a mensagem de Cristo.
E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua vida, por amor de mim, achá-la-á. (versículos 38 e 39)
Cumprir Sua palavra é sofrer, renunciar aos próprios desejos e prazeres -- ou padecer na própria carne, como fazem os missionários em países onde há perseguição religiosa. Só depois do sofrimento, alcançaremos o crescimento, mostra o Evagelho de Mateus.

Se o evangelho fosse escrito hoje, Cristo -- quem sabe? -- não usaria a linguagem altissonante impressa na Bíblia. Talvez o capítulo 10 de Mateus fosse resumido em poucas frases simples, como as que compõem a entrevista de Gibson. A essência da mensagem, sem dúvidas, seria a mesma, independentemente da forma:
"A dor é pré-requisito para a Salvação"

segunda-feira, 30 de maio de 2011

bandas do cinema que deveriam ter existido

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O sucesso de uma obra cinematográfica depende da qualidade do roteiro, da interpretação dos atores, dos figurinos, dos cenários, entre outros pontos técnicos relevantes - alguns nem tanto. Ao longo da história do cinema americano, não faltam obras que reverenciam a própria indústria cultural: "O Aviador" (2004), de Scorcese, conta a história de Howard Hughes, produtor conhecido por torrar dinheiro em mega-produções; "Dirigindo no Escuro" (2002), de Woody Allen, brinca com a subjetividade dos filmes franceses ao contar a história de um diretor que fica cego no meio das gravações.

O mais comum, porém, é encontrar filmes que fazem referência à indústria musical. E nestes casos, os produtores de Hollywood sabem que as composições são tão fundamentais quanto as atuações dos atores e de todo o corpo técnico. Nomes de peso são contratados para produzir canções belíssimas, que transcendem a barreira da ficção para ganhar vida em regravações na voz de artistas reais.

Sou fã assumido de obras do gênero e tenho minha listinha de bandas fictícias que deveriam ter existido na vida real. Compartilho algumas delas com vocês:

- Stillwater; "Quase Famosos" (2000), de Cameron Crowe

O filme conta a história de um jovem jornalista (o próprio Crowe na adolescência) que ganha a chance de publicar na Rolling Stone uma entrevista com o Stillwater, grupo fictício que lembra muito o Led Zeppelin -- na vida real, Crowe entrevistou o Neil Young ainda jovem (young, jovem, pegou o trocadilho?)



- Pop; "Letra e Música" (2007), de Marc Lawrence

O filme marca a redenção de Alex Fletcher (em uma interpretação hilária de Hugh Grant), um ex-integrante da Pop, boy band dos anos 80, que não teve sucesso na carreira solo. O clipe do maior hit da banda é um exímio trabalho de recomposição (palmas para a cenografia e o figurino) de elementos típicos da década de 80. E o filme tem um dos melhores diálogos que já ouvi sobre a relação entre letra e música:
"A melodia é como ver alguém pela primeira vez. É a atração física. É o sexo. E o conhecimento do outro é a letra. A história dos dois, quem são de verdade. É dessa combinação que nasce uma grande canção"
Assista ao clipe. É realmente muito engraçado. Só dá para assistir no Youtube.

- Ruckus; "Tudo Acontece em Elizabethtown" (2005), Cameron Crowe

Cá estamos nós novamente em um filme do Cameron Crowe. Talvez a experiência como repórter da Rolling Stone durante décadas, ou o casamento com Nancy Wilson, guitarrista do Heart nos anos 80', tenham influenciado a sensibilidade musical de Crowe. A trilha sonora do filme é uma verdadeira aula de folk e me apresentou a cantores como Tom Petty, Ryan Adams, Lindsey Buckingham (ex-integrante do Fleetwood Mac), entre outros.

Mas estamos aqui para falar da Ruckus, certo? A banda nem aparece tanto no filme porque o vocalista e baterista do grupo é primo do protagonista. Mas é deles a melhor música do filme: "Same In Any Language", originalmente composta por ninguém mais, ninguém menos, que My Morning Jacket. Precisa dizer mais? Sim, precisa. Caso não tenha interesse em assistir ao filme, assista-o pela cena final, quando o Ruckus volta à ativa para executar Free Bird, clássico do rock, em um funeral. Genial!



- The Wonders; "The Wonders: O Sonho Não Acabou" (1996), de Tom Hanks

Pouca gente repara neste filme, perdido no meio da gigantesca filmografia de Hanks -- entre "Apollo 13" e "Resgate do Soldado Ryan". Estreia dele como diretor, o filme conta a ascensão meteórica do grupo The Wonders, uma alusão clara aos Beatles -- na verdade, eles são tratados como concorrentes, já que a banda de Liverpool é citada mais de uma vez. Todo o ambiente dos anos 60 é recriado com carinho, incluindo inúmeros artistas fictícios -- eu procurei por discos do Del Paxton e fiquei triste ao saber que o jazzista nunca existiu. O filme vale a pena e as canções garantem um sorriso mesmo em quem o assiste pela milésima vez -- como eu!


De longe, o meu favorito!

terça-feira, 24 de maio de 2011

bob dylan, 70 anos!

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Hoje Bob Dylan, mestre do folk e disseminador máximo do modelo estrofe-refrão-estrofe-refrão-solo-refrão na música mundial, completa 70 anos de idade. Pouca gente sabe, mas ao longo de tantas fases na carreira, Dylan se converteu ao cristianismo no fim dos anos 70 e lançou três discos: Slow Train Coming, Saved e Shot Of Love (ouça-os!).

O primeiro deles é reverenciado como um dos melhores álbuns do cantor, principalmente pela canção Gotta Serve Somebody (você vai servir alguém, na minha tradução tosca), de 1979, que rendeu um Grammy para o cantor. Uma busca rápida pelo Youtube dá a noção da quantidade de covers que a música possui - até mesmo o Lenine cantou em uma versão escrita por Vitor Ramil.

Algo nesta mensagem precisa ser ecoado:



You may be a preacher with your spiritual pride
You may be a city councilman taking bribes on the side
You may be workin' in a barbershop, you may know how to cut hair
You may be somebody's mistress, may be somebody's heir

But you're gonna have to serve somebody, yes indeed
You're gonna have to serve somebody
Well, it may be the devil or it may be the Lord
But you're gonna have to serve somebody
--
Você pode ser um pastor, com seu orgulho espiritual
Pode ser um vereador recebendo suborno por fora
Pode ser um barbeiro, você pode saber como cortar cabelo
Pode ser amante de alguém, ou herdeiro de alguém

Mas vai ter de servir alguém, realmente
Você vai ter de servir alguém
Bem, pode ser ao diabo ou pode ser ao Senhor,
mas um dia você vai servir alguém
(tradução minha, com ajuda do Google)
Outro detalhe que é sempre bom lembrar: nesta fase cristã, Dylan chegou a contribuir no disco de um tal Keith Green - os detalhes estão na Wikipédia. Este vocês sabem quem é, certo? Olha que eu já falei dele aqui...

Update
Trecho de texto publicado na Rolling Stone sobre as diferentes fases da carreira de Dylan:

Nascido de novo - 1979-1981 Tanta atenção era dada à mensagem devota cristã presente em Slow Train Coming, de 1979, que poucas pessoas perceberam quão incríveis eram as músicas deste período. Ninguém sabe o que leva um judeu a começar a compor faixas gospel como "Slow Train" "Precious Angel" ou "Pressing On", mas baseado na paixão que ele despejava em cada palavra cantada naquela época, ficava claro que ele estava falando sério em cada uma delas. O sermão dado à plateia durante os shows refletia uma ideologia ainda mais radical que a já mostrada em suas canções. "Sabe o que está acontecendo agora quando você olha para o Oriente Médio? Estão indo para uma guerra. Isso mesmo, estão indo para uma guerra. Terá uma guerra lá. Eu poderia dizer em cinco, 10 ou 15 anos, não sei, mas lembrem-se do que eu disse aqui. Eu falei para vocês que os tempos iam mudar em 'The Times They Are A-Changin' e eles mudaram", ele disse para um público no Novo México. "Eu disse para vocês que a resposta estava voando no vento em 'Blowin' In The Wind' e ela estava! E estou dizendo para vocês agora, Jesus está voltando e ele está! E não há nenhuma outra forma para se salvar."